Quinta-feira, 19 de Março de 2009

Fanny Ardant e eu



A gente ouve canto gregoriano
Ela mal fala e eu não digo nada
Nossa relação é assim
Fanny Ardant e eu

Passo a noite com o Sylvain
Enquanto ela fita o papel de parede
Nos mantivemos independentes
Eu e Fanny Ardant

Ela fica na estante
Entre um livro do Éric Holder
Uma luminária branca do Ikea
E um cartão postal da Maria

Ela está sempre de preto e branco
E parou de dizer "enfim, domingo!"
Quando passei a arrastá-la pra casa dos meus pais
Todo fim-de-semana, Fanny Ardant

Não falo pra ela das meninas de Jussieu
Ela não fala muito do Dépardieu
É, a gente evita esses assuntos
Fanny Ardant e eu

Há algo no olhar dela
Que me reprova por voltar tão tarde
Ela queria que eu ficasse em casa o tempo todo
É óbvio, Fanny Ardant

(letra e música: Vincent Delerm)

Terça-feira, 17 de Março de 2009

Vou de escada

Procedimento de rotina num hospital do Rio de Janeiro: transferida para a maca, a paciente de 79 anos deixa o quarto e, através dos corredores, é empurrada até ao centro cirúrgico. Tudo vai bem, até ela se dar conta do que está a ponto de acontecer: "Alto lá!" Já sentada na maca, dona Maria Theresa espeta o dedo no ar: "De elevador eu não vou!"

Não houve enfermeiro que a convencesse a embarcar. A cirurgia só pôde ser realizada depois que a paciente recebeu autorização para descer da maca e, de touca e avental, completar o trajeto pela escada.

Assim começa o perfil de dona Maria Theresa Pauletto que publiquei na seção Esquina da Piauí de março. Leia a íntegra no site da revista.

Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Escroto de violoncelo

Saiu no Mais de ontem uma reportagem minha sobre o interessantíssimo caso do escroto de violoncelo. Com os cortes feitos na composição da página, acabaram ficando de fora alguns detalhes saborosos. Abaixo, a versão original do texto, com links.


Cai uma farsa
Infecção genital de violoncelistas era inventada, confessa baronesa


Chegou ao fim um embuste que durava 34 anos na medicina. Ao publicar no fim de janeiro último uma carta assinada pela baronesa Elaine Murphy e por seu marido, o vetusto British Medical Journal (BMJ) reconheceu a inexistência de uma doença que ele próprio ajudara a colocar na literatura médica. O reconhecimento da fraude devolvia à esfera da fantasia a suposta infecção que acometeria a região genital de violoncelistas profissionais.

A origem da impostura remonta a abril de 1974, quando o BMJ publicou uma carta do médico P. Curtis, de Winchester, relatando o caso de três jovens pacientes do sexo feminino acometidas por uma inflamação cutânea em um dos seios. Em comum, as garotas estavam aprendendo a tocar violão clássico, e a fricção continuada do instrumento com o corpo estava causando o que o autor batizou de “mamilo de violão”.

Quando leu o relato, Elaine Murphy – que ainda não era baronesa e trabalhava como professora do hospital Guy’s & St. Thomas, em Londres – não acreditou. Aquilo não podia ser sério.

Naquela época, publicar no BMJ – hoje o sétimo periódico mais influente do meio médico, com fator de impacto 9,2 – era um sonho longínquo para Elaine, então com 27 anos. Se a revista publicara um relato como aquele, ela também poderia emplacar a descrição de uma doença fictícia ridícula.

Para isso, era fundamental um conluio com seu marido John, que, por não ser do meio médico – sua formação é em química teórica –, teria menos a perder caso a fraude fosse desmascarada.

Foi ele quem assinou a carta que o BMJ publicou na edição de 11 de maio de 1974. Seu relato elegante e sucinto, de apenas nove linhas, comunicava que ele nunca havia se deparado com o tal “mamilo de violão”, mas que havia, sim, presenciado um caso de um violoncelista com uma infecção no saco motivada pelo atrito do instrumento. As várias horas diárias de prática foram, segundo o autor, determinantes para o surgimento do que ele achou por bem chamar de cello scrotum – em bom português, “escroto de violoncelo”.

Para espanto do casal gaiato, o periódico publicou o relato, a despeito de qualquer verossimilhança anatômica. O leitor que visualizar um violoncelo facilmente intuirá que a fricção continuada do instrumento necessária para o surgimento da infecção requer uma postura digna de um ginasta.

O violoncelista Ricardo Santoro, da Orquestra Sinfônica Brasileira, atesta essa impossibilidade. “O único contato do instrumento é com o peito e com as pernas, na altura do joelho”, explica ele. O músico, que pratica até nove horas num dia de rotina, nunca ouvira falar da patologia antes. “Eu ficaria surpreso se soubesse de algum caso real. E, ainda que o sujeito conseguisse chegar a essa posição, seria praticamente impossível tocar o violoncelo!”

Seja como for, fato é que o relato de John Murphy pôs o escroto de violoncelo no mapa da medicina musical. A carta publicada em 1974 vem sendo citada bissextamente na literatura desde então – o Institute for Scientific Information registrava 12 menções a ela até o fim de fevereiro deste ano.

É verdade que nem todos engoliram a farsa. Um duro golpe veio em abril de 1990, quando um artigo de P. E. Shapiro no Journal of the American Academy of Dermatology pôs em questão a existência do escroto de violoncelo. Mas o baque não foi suficiente para abalar a credibilidade da doença.

O mito sobreviveria incólume até a edição de Natal de 2008 do BMJ. Ali foi publicado o artigo de revisão “Uma sinfonia de doenças”, em que Sarah Bache e Frank Edenborough compilam as diferentes patologias que podem acometer os músicos profissionais.

O trabalho reúne uma galeria de doenças insuspeitas até para alguns instrumentistas. Esse universo está povoado de afecções como a síndrome de Satchmo – mal que acomete trompetistas e outros instrumentistas da seção de sopros e que consiste na ruptura dos músculos que atuam como um esfíncter da boca.

Na seção do artigo dedicada às doenças dermatológicas, perdido entre o pescoço de violinista e o queixo de flautista, lá estava o famigerado escroto de violoncelo, apresentado não sem certa ironia. “A posição canhestra exigida para o surgimento dessa doença faz dela uma raridade que tem sido questionada”, alfinetavam os autores.

Ali estava a deixa que Elaine Murphy buscava há anos. À sua revelia, aquela brincadeira inconsequente da juventude tomara uma proporção incômoda. Alguns amigos próximos do meio médico sabiam da farsa. Ela conta ter negociado com o ex-editor de outro periódico médico de prestígio – The Lancet – a forma mais conveniente de revelar a fraude. Mas faltava um bom pretexto, julgaram eles na época.

Com a publicação da “Sinfonia de doenças”, Elaine tinha agora o álibi para vir a público fazer seu mea-culpa. O momento não podia ser mais confortável: aos 62 anos, ela já não tinha como arranhar a sólida carreira que havia construído no meio médico – noves fora o título de nobreza e o assento vitalício na Câmara dos Lordes do Reino Unido que ela recebera em 2004.

Junto com John, a baronesa remeteu ainda em dezembro nova carta ao BMJ, confessando serem eles os inventores do escroto de violoncelo. Jane Smith, editora-assistente do periódico, conta que a reação inicial de sua equipe foi de grande divertimento com a confissão – um representante do BMJ chegou a declarar, quando a história veio à tona, que o episódio trazia um toque de alegria para a vida.

Mas isso não impediu que o periódico renegasse o relato original em uma retratação formal publicada no início de fevereiro. E o discurso da revista ganhou ares mais ponderados. "Essa peça provavelmente teria sido descoberta nos dias de hoje", acredita Smith. "Nossa política em relação às cartas é bem diferente da que adotávamos 30 anos atrás. Raramente publicamos relatos de casos como estes e, quando isso acontece, eles são submetidos à revisão por pares".

Parte dos leitores também reagiu com bom humor. "Revistas médicas deveriam sempre salpicar fraudes como essa entre os artigos sérios, para treinar o olho crítico de seus leitores", propôs um comentário postado no site do BMJ, assinado por Joseph More.

Já a leitora que se identificou como Elizabeth Weinbloom viu no episódio uma metafarsa. "A confissão é que é a verdadeira brincadeira”, aposta. “Estão nos pregando uma peça ao nos fazer crer que os autores pregaram uma peça trinta anos atrás."

Ao revelar o embuste, a baronesa Murphy tirou um peso das costas. Em entrevista à BBC, ela admitiu que não gostaria de suscitar preocupações com a doença que inventara. "Mas, até onde eu saiba, não há qualquer caso de músico profissional que tenha exigido alguma indenização por acidente de trabalho resultante dessa infecção", reconhece, aliviada.

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

A fraude de Einstein chegou ao fim

Vira e mexe escreve pra Ciência Hoje um maluco para apresentar a teoria formulada por ele que vai desmascarar a fraude de Einstein e revolucionar nossa forma de enxergar o universo.

E eis que, outro dia, atrás de público para ouvi-lo, o amigo me aparece na porta do CBPF, com um cartaz no qual ele desmascara "a maior fraude científica da história do conhecimento moderno".

Quer ouvir o apelo público dessa pobre alma por um pouco de atenção? Tome o tempo de clicar na imagem para ler o texto.

Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Vitória?

Barbara escreveu hoje um post lamentando a derrota de Gabeira no Rio. Fiquei chateado também: começo a minha trajetória de eleitor no Rio - motivada justamente pelo lançamento da candidatura de Gabeira - com um resultado negativo nas urnas.

Mas queria justamente relativizar essa noção de resultado negativo, essa "derrota", como muitos andaram defendendo. Acho que, sob muitos aspectos, o desempenho de Gabeira nessa eleição foi vitorioso, e que assim deve ser encarado.

Deixei há pouco um comentário no post da Barbara manifestando esse ponto de vista, em parte construído no chope de ontem com Sander e Sergio. Com a licença dela, queria reproduzi-lo aqui, já que ando tão sumido desta bodega.

Só pra contextualizar, o comentário começa discutindo a frustração que ela manifestou por não ter podido votar, já que está em Londres. A ele:

Esse vai ser um legado bom dessas eleições: várias pessoas que não votaram perceberam que, desta vez, o voto individual delas poderia de fato ter feito a diferença.

De qualquer forma, não creio que caiba decepção. Claro, foi por uma unha, dava pra ter levado esta. Mas eleição não é partida de futebol, em que um ganha e outro perde e pronto. Acho que Gabeira saiu vitorioso sim deste pleito.

Primeiro, porque mostrou que existe sim no Rio uma vontade de mudança, uma força política difusa que só precisa de um nome forte em torno do qual se aglutinar. E Gabeira mostrou ser esse nome.

Com seu cacife de 1,64 milhão de votos, ele se coloca desde já como um nome central para as eleições de 2010. Não só porque seria um candidato forte para o governo ou - mais provável pra mim - para o senado. Mas sobretudo porque se tornou uma força política inevitável no RJ: quem quer que pleiteie governar o estado vai precisar dialogar com ele.

Além disso, ele vai chegar a 2010 sem o desgaste de ter ocupado a prefeitura durante dois anos - um prazo muito pequeno para produzir mudanças que surtam efeito palpável na vida dos eleitores, diante da tragédia das últimas administrações.

Trocando em miúdos: ele tem tudo pra chegar a 2010 com o bônus e sem o ônus dessa vitória política de ontem.

Mas que dá uma pena ele ter perdido, isso dá...

Sábado, 25 de Outubro de 2008

A ilusão da comunicação

Sempre achei que o entendimento entre os indivíduos repousa sobre uma grande farsa: a ilusão da comunicação. Quando conversamos, temos certeza de que os outros nos entenderam e vice-versa. E seguimos adiante, sem nos certificar disso. Mas nem sempre é assim.

Alguns ambientes são mais propícios para desmascarar alguns desses mal-entendidos. Em mensageiros instantâneos, como o chat do GMail, é comum que os interlocutores se dêem conta de que estão falando de coisas totalmente distintas.

A regularidade com que os mal-entendidos acontecem ali dá uma idéia da espantosa freqüência com que isso deve ocorrer em outras circusntâncias, sem que percebamos.

A situação mais propícia para a divergência de sentido é o silêncio. As pessoas atribuem ao silêncio o sentido que bem entendem, e seguem agindo conforme o significado a ele colado. Nesse caso, quanto mais longo o período de silêncio, maior o desvio potencial de compreensão mútua.

De certa forma, a proximidade entre duas pessoas pode se medir pelo grau com que elas são capazes de se sentir à vontade em silêncio num mesmo ambiente. Mas isso não quer dizer que elas estejam se entendendo. No fundo, a proximidade entre as pessoas talvez seja só uma questão de se sentir bem com o outro sem fazer muitas perguntas.

Todas essas reflexões, um tanto antigas para mim, foram reavivadas pela leitura de um artigo na Piauí de outubro. No texto, o cubano Edmundo Desnoes traça um paralelo entre Nova York, onde vive, e São Paulo, que acabara de conhecer, aos 77 anos.

Não me alinho sistematicamente com o que ele diz sobre SP, mas achei um deleite a conclusão do texto, em que ele conta como estava se fazendo entender com seu portunhol safado.

Isso evidenciou muitos mal-entendidos e pôs a nu a tal ilusão. No fundo, conclui o autor, foda-se: isso nunca nos impediu de viver... E a vida segue, pois, com ou sem entendimento.

Bola com Desnoes:

Durante todos os meus dias em São Paulo nunca foi necessário recorrer a uma tradução, entendia as perguntas e comentários em português e vocês entendiam minhas falas e respostas em espanhol.

Esse diálogo estrelado de afinidades e diferenças tem suas vantagens; como na vida em si, nunca sabemos se nos entendem, se compreendemos o outro. Mas essa distorção das palavras impede que nos enganemos.

As palavras se parecem, mas ao mesmo tempo lutam e se abraçam em suas diferenças. A imagem que tenho é a de estar em íntimo contato através do cristal escarchado de um boxe de banheiro.

Vejo um corpo nu do outro lado, não tenho certeza se é um corpo jovem ou em ruínas, se o outro esfrega a cabeça, coça o peito ou ensaboa o sexo. Mas sei que do outro lado um corpo me fala e se banha despido em minhas palavras, e me lança suas palavras de água fresca.

Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Comentários

Na faculdade a gente aprende que é muito bonita toda essa coisa de dar voz a todo mundo, comunicação de múltiplas mãos, dialogismo, polifonia.

E de repente agora a web 2.0, blogs notícias com comentários, os leitores ganham voz em todo canto. E aí o que se vê? Você vai ler comentários de notícia do Globo e só tem estupidez, o Pedro Doria dá as costas e os comentaristas aprontam no blog dele.

Será a falência da polifonia? Onde foi que a gente errou?

@floyddust me ajudou a entender o fenômeno ao argumentar que, no fundo, o uso da palavra na internet só faz refletir a dinâmica da vida real. O problema, diagnostica ele, é que os chatos são sempre os mais barulhentos, on-line ou off-line.

Mas a formulação definitiva veio de Paulo Francis, atualizado por Caetano Veloso, que tem um blog em que escreve caudalosamente e que acompanho de perto - o blog, não os comentários, pelo menos não aqueles que o blogueiro não comenta nos posts abertos, hábito que ele nutre com gosto.

Mas fujo do assunto. Vamos logo ao sucinto e visionário veredito:

Paulo Francis dizia que quem escreve cartas à redação é maluco. Vejo que a Interenet é o paraíso desses malucos e os blogs são os jardins do paraíso. Mas como sou maluco também, cortei fora os faniquitos (...)

Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

Alteza

Fui ver cantar anteontem uma verdadeira lenda viva da música brasileira: Roberto Silva, conhecido como o "Príncipe do Samba".

Sua Alteza começou a cantar no longínquo 1938, quando seus pais provavelmente nem pensavam em nascer. Aos 88 anos, está comemorando espantosos 70 anos de carreira com uma série de participações especiais na roda de choro comandada por Paulão 7 Cordas nas terças de setembro no Carioca da Gema.

Já havia visto Roberto Silva duas vezes antes, e a impressão marcante que tive então se renovou anteontem: a idade parece em nada ter afetado a voz de veludo do Príncipe, que tem no palco um pique de fazer inveja a muito quarentão por aí.

Nos shows que fez este mês, ele desfilou alguns dos clássicos do samba para os quais deu interpretações definitivas em sete décadas de carreira.

Em uma apresentação mágica com cerca de uma hora, ele encadeou clássico atrás de clássico - estavam lá "Pisei num despacho", "Você está sumindo", "Escurinho", "Falsa baiana" e tantos outros.

Fiz um registro de algumas músicas para publicar aqui. A qualidade é fraca - câmera de celular -, mas dá uma idéia da forma do Príncipe.

Para começar, "Notícia", um samba triste de Nelson Cavaquinho (quase um pleonasmo), em que ele relata a traição de um amigo com sua mulher. "Só desejo que vivas em paz / Com aquela que manchou meu nome / Vingança / Meu amigo, eu não quero vingança / Os meus cabelos brancos me obrigam / A perdoar uma criança". (Leia a errata nos comentários!)



Depois, "Oh! Seu Oscar", pequena pérola de Wilson Batista e Ataulfo Alves em que o marido, após chegar exausto do trabalho, encontra um bilhete da esposa que o havia abandonado para cair na orgia. (Aliás, cineastas de plantão, procuro parcerias para fazer um curta com essa música: quem se habilita?)



Pra fechar, "Juracy", samba de Antonio Almeida e Cyro de Souza em que o narrador cobra uma definição da musa. "Mas agora eu quero saber / Qual a sua opinião / Pra resolver nossa situação / Pode ser ou tá difícil, coração?"



Pra quem gostou da palhinha, ainda resta uma chance: o Príncipe se apresenta uma última vez na terça que vem, 30 de setembro.

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Divorce your car (3)

O Dia Mundial Sem Carro, celebrado hoje, é um bom pretexto para acrescentar alguns argumentos à listinha que venho publicando aqui, de forma bastante bissexta, com o objetivo de mostrar por que você deveria pensar duas vezes em continuar com seu carro.

Outro dia fez um ano que voltei ao Brasil e, depois de todo esse tempo, posso dizer que o carro não tem feito a menor falta. Mais do que isso, sequer consigo vislumbrar a idéia de voltar a ter um.

Nos capítulos anteriores, relatei como me tornei uma pessoa mais calma quando vendi meu carro e mostrei também como gasto muito menos dinheiro andando de ônibus e táxi do que gastava para manter meu velho Gol.

Mas economia e saúde mental estão longe de ser os únicos motivos a me fazer passar longe de carro hoje em dia. Sem muita preocupação de hierarquizar os tópicos, eis alguns motivos a mais.

Comecemos com dez coisas desagradáveis que nunca mais tive que fazer:

- trocar pneu
- fazer vistoria
- fazer baliza na subida
- limpar bosta de pombo no capô
- trocar óleo, alinhar e balancear
- lavar o carro
- amaldiçoar a chuva que cai sempre que você lava o carro
- arranhar a pintura na coluna da garagem
- ter o retrovisor arrancado por vândalos
- ir buscar o carro rebocado no depósito

E olhe que nem falamos ainda na Lei Seca! Mas vou pular esse argumento, porque é covardia defender o cumprimento da lei na minha situação. Deixo o trabalho sujo pra quem tem carro na garagem - e vamos adiante.

Não ter carro também é cultura: agora leio muito mais, sempre que pego ônibus ou metrô. O Cortázar aí embaixo, por exemplo, foi devorado praticamente só no transporte público, aproveitando a chuva que caiu na semana passada e aposentou momentaneamente minha bicicleta.

Falando em bicicleta, não ter carro também é saúde - desnecessário explicar por quê. Voltarei em detalhes a esse tema um dia em um post à parte para descrever como a vida de ciclista transformou meu olhar sobre a cidade.

E não ter carro, obviamente, também é segurança. É claro que quem anda a pé e de ônibus também é vítima de assaltos, mas a violência tende a ser maior contra quem está motorizado. A única vez que tive um revólver apontado contra mim, aliás, foi porque queriam roubar o carro em que eu estava.

Mas nada disso se compara à vantagem suprema de andar a pé. Desde que vendi meu carro, tirei da minha vida três figuras nefastas: o flanelinha, o mecânico e o policial de blitz.

Precisa dizer mais?